As vezes otimizar o que funciona pode silenciosamente te aprisionar em um equivoco
Nem tudo o que funciona precisa ser otimizado...
Mahatma Gandhi não parecia destinado a "mudar o mundo". Ele nasceu em 1869 na Índia. Estudou direito em Londres e iniciou sua carreira profissional na África do Sul. Mas seu desempenho como advogado foi, para dizer o mínimo, medíocre. Era muito tímido, tinha dificuldades para falar em público e fracassou diversas vezes ao tentar se estabelecer por conta própria. Durante anos, não houve sinais claros de grandeza.
Ele não se destacava pela oratória. Não liderava partidos políticos. Não ocupava cargos importantes. Se alguém tivesse avaliado sua trajetória naquela época, provavelmente teria concluído que ele era um profissional medíocre, sem nenhum impacto especial. E então algo inesperado aconteceu: ele parou de tentar ser um advogado de sucesso.
Em vez de se dedicar à carreira jurídica, ele começou a se envolver em causas sociais. Primeiro, defendeu os direitos civis da comunidade indiana na África do Sul. Mais tarde, retornou à Índia e se juntou ao movimento de independência. Durante décadas, ele se dedicou à resistência não violenta. Uma forma de ação política que parecia ineficaz ou ingênua. Marchas. Greves de fome. Desobediência civil pacífica. Nada disso parecia uma estratégia eficaz contra o poder do Império Britânico. Mas isso mudou tudo. Sua visão mudou o curso da história da Índia e deixou um legado para a política moderna. Ele inspirou movimentos pelos direitos civis em todo o mundo e redefiniu o conceito de liderança. Hoje, ele é lembrado como uma das figuras mais influentes do século XX. E tudo isso surgiu de algo que parecia ineficiente... Voltaremos à história dele daqui a pouco.
Especialistas em produtividade diriam para você se concentrar em ser eficaz, e não apenas eficiente.
Uma das ideias mais utilizadas é o princípio de Pareto. A regra 80/20 afirma que, em muitas áreas, uma minoria de causas gera a maioria dos resultados. Uma pequena porcentagem de pessoas detém a maior parte das terras. Algumas poucas equipes ganham a maioria dos campeonatos. Os números exatos não importam muito. O que importa é a relação.
Aplicada à vida, a regra 80/20 ajuda a separar o essencial do trivial. É uma ótima estratégia. Eu mesmo já usei muitas vezes e funciona maravilhosamente bem, mas essa regra tem um lado obscuro que muitas pessoas ignoram... Para entender isso, voltemos ao nosso caso inicial.
Mesmo que sua intenção fosse ajudar a comunidade, uma análise 80/20 poderia ter sugerido que ganhar mais dinheiro como advogado e financiar causas sociais seria melhor. Tudo isso faz sentido... se Gandhi quisesse continuar sendo advogado. Mas ele não fez isso. Ele queria mudar uma injustiça estrutural e, para isso, precisava ir às ruas e mobilizar as pessoas. E não havia nenhuma análise que sugerisse que a resistência não violenta (liderada por um homem sem poder político ou militar) seria eficaz.
Eis o problema da regra 80/20: um novo caminho quase nunca parece ser a opção mais eficaz de início.
Reed Hastings, fundador da Netflix, construiu um negócio de sucesso enviando DVDs pelo correio. No início dos anos 2000, esse modelo funcionou bem: cresceu de forma constante, tinha clientes fiéis e gerava receita crescente. Se Hastings tivesse usado a regra 80/20, ele teria pensado exatamente o que você está imaginando... Otimizar o negócio de DVDs... Era ali que fazia sentido; era ali que se concentrava a maior parte da receita e da experiência acumulada. Em termos de rentabilidade, estabilidade e bom senso, melhorar o que já existia era a opção mais eficaz. Mas não foi.
Apostar em assistir filmes pela internet, por outro lado, parecia duvidoso. A tecnologia ainda era imatura, a infraestrutura muito limitada e os hábitos de consumo ainda não haviam se consolidado dessa forma. Era uma transformação completa do setor.
Com base em qualquer análise de resultados anteriores, não parecia ser a opção ideal.
Isso acontece porque a regra 80/20 é sempre calculada com base na sua eficácia recente. O que parece oferecer o melhor retorno sobre seu investimento de tempo depende das habilidades que você já possui e das oportunidades que já existem. A regra 80/20 ajuda você a descobrir o que funciona e a maximizar seus resultados. Mas se você não quer que seu futuro seja uma repetição do seu passado, mude o foco.
O custo de ser eficiente demais é que você acaba otimizando o que já funcionou e se prende a isso de tal forma que o viés do custo irrecuperável faz com que você subestime as outras opções. E isso pode acabar sendo catastrófico.
Ironicamente, a Kodak foi uma das primeiras empresas a desenvolver uma câmera digital... mas o produto não parecia promissor, era um território inexplorado e, claro, menos lucrativo. Então, a Kodak fez exatamente o que a regra 80/20 recomendaria: proteger o negócio que dava certo. Entretanto, o mundo mudou. E muito rápido.
Com o tempo, a fotografia digital tornou-se dominante, os negócios da Kodak entraram em colapso e a antiga líder de mercado acabou declarando falência em 2012.
A Kodak não faliu por ineficiência. Falhou porque foi eficaz demais em jogar o jogo errado.
Quando Gandhi iniciou sua luta pela resistência não violenta, ela parecia inútil contra o poder imperial. Décadas depois, sua abordagem conquistou a independência da Índia e influenciou movimentos pelos direitos civis em todo o mundo. É improvável que ele tivesse conseguido isso tentando ser um advogado mais eficiente.
Aprender uma nova habilidade, abrir um negócio ou começar uma nova fase da vida quase sempre parece um mau investimento à primeira vista. Temos dificuldade em visualizar o futuro distante; é mais fácil enxergar o curto prazo. É por isso que essas mudanças nunca parecem certas. Comparado com o que você já sabe fazer, o novo caminho parece uma perda de tempo.
A lógica 80/20 nunca funciona tão bem quando chega a hora de mudar de direção. Mas isso não significa que sua nova direção esteja errada. Que decisão você tomaria se parasse de perguntar "o que funciona melhor agora" e começasse a perguntar "quem eu quero me tornar?"
Mahatma Gandhi não parecia destinado a "mudar o mundo". Ele nasceu em 1869 na Índia. Estudou direito em Londres e iniciou sua carreira profissional na África do Sul. Mas seu desempenho como advogado foi, para dizer o mínimo, medíocre. Era muito tímido, tinha dificuldades para falar em público e fracassou diversas vezes ao tentar se estabelecer por conta própria. Durante anos, não houve sinais claros de grandeza.
Ele não se destacava pela oratória. Não liderava partidos políticos. Não ocupava cargos importantes. Se alguém tivesse avaliado sua trajetória naquela época, provavelmente teria concluído que ele era um profissional medíocre, sem nenhum impacto especial. E então algo inesperado aconteceu: ele parou de tentar ser um advogado de sucesso.
Em vez de se dedicar à carreira jurídica, ele começou a se envolver em causas sociais. Primeiro, defendeu os direitos civis da comunidade indiana na África do Sul. Mais tarde, retornou à Índia e se juntou ao movimento de independência. Durante décadas, ele se dedicou à resistência não violenta. Uma forma de ação política que parecia ineficaz ou ingênua. Marchas. Greves de fome. Desobediência civil pacífica. Nada disso parecia uma estratégia eficaz contra o poder do Império Britânico. Mas isso mudou tudo. Sua visão mudou o curso da história da Índia e deixou um legado para a política moderna. Ele inspirou movimentos pelos direitos civis em todo o mundo e redefiniu o conceito de liderança. Hoje, ele é lembrado como uma das figuras mais influentes do século XX. E tudo isso surgiu de algo que parecia ineficiente... Voltaremos à história dele daqui a pouco.
Eficiência versus eficácia
Você só tem uma vida. Como decidir a melhor maneira de usar seu tempo?Especialistas em produtividade diriam para você se concentrar em ser eficaz, e não apenas eficiente.
- Eficiência significa fazer mais coisas com menos recursos
- A eficácia consiste em fazer as coisas certas bem feitas
Uma das ideias mais utilizadas é o princípio de Pareto. A regra 80/20 afirma que, em muitas áreas, uma minoria de causas gera a maioria dos resultados. Uma pequena porcentagem de pessoas detém a maior parte das terras. Algumas poucas equipes ganham a maioria dos campeonatos. Os números exatos não importam muito. O que importa é a relação.
Aplicada à vida, a regra 80/20 ajuda a separar o essencial do trivial. É uma ótima estratégia. Eu mesmo já usei muitas vezes e funciona maravilhosamente bem, mas essa regra tem um lado obscuro que muitas pessoas ignoram... Para entender isso, voltemos ao nosso caso inicial.
A sombra da Regra 80/20
Imaginemos que estamos no início do século XX. Gandhi está decidindo... tentando decidir como usar seu tempo e energia. Se ele tivesse aplicado a regra 80/20 à sua carreira até então, a resposta seria clara: concentrar-se na carreira de advogado. Era ali que estavam sua renda, estabilidade e histórico profissional. Se o objetivo fosse maximizar o impacto mensurável, a estratégia eficaz teria sido tornar-se um advogado mais eficiente, especializar-se e progredir dentro do sistema existente.Mesmo que sua intenção fosse ajudar a comunidade, uma análise 80/20 poderia ter sugerido que ganhar mais dinheiro como advogado e financiar causas sociais seria melhor. Tudo isso faz sentido... se Gandhi quisesse continuar sendo advogado. Mas ele não fez isso. Ele queria mudar uma injustiça estrutural e, para isso, precisava ir às ruas e mobilizar as pessoas. E não havia nenhuma análise que sugerisse que a resistência não violenta (liderada por um homem sem poder político ou militar) seria eficaz.
Eis o problema da regra 80/20: um novo caminho quase nunca parece ser a opção mais eficaz de início.
Otimizando seu passado ou construindo seu futuro?
Consideremos outro exemplo...Reed Hastings, fundador da Netflix, construiu um negócio de sucesso enviando DVDs pelo correio. No início dos anos 2000, esse modelo funcionou bem: cresceu de forma constante, tinha clientes fiéis e gerava receita crescente. Se Hastings tivesse usado a regra 80/20, ele teria pensado exatamente o que você está imaginando... Otimizar o negócio de DVDs... Era ali que fazia sentido; era ali que se concentrava a maior parte da receita e da experiência acumulada. Em termos de rentabilidade, estabilidade e bom senso, melhorar o que já existia era a opção mais eficaz. Mas não foi.
Apostar em assistir filmes pela internet, por outro lado, parecia duvidoso. A tecnologia ainda era imatura, a infraestrutura muito limitada e os hábitos de consumo ainda não haviam se consolidado dessa forma. Era uma transformação completa do setor.
Com base em qualquer análise de resultados anteriores, não parecia ser a opção ideal.
Isso acontece porque a regra 80/20 é sempre calculada com base na sua eficácia recente. O que parece oferecer o melhor retorno sobre seu investimento de tempo depende das habilidades que você já possui e das oportunidades que já existem. A regra 80/20 ajuda você a descobrir o que funciona e a maximizar seus resultados. Mas se você não quer que seu futuro seja uma repetição do seu passado, mude o foco.
O custo de ser eficiente demais é que você acaba otimizando o que já funcionou e se prende a isso de tal forma que o viés do custo irrecuperável faz com que você subestime as outras opções. E isso pode acabar sendo catastrófico.
O caso Kodak
Durante grande parte do século XX, a Kodak foi sinônimo de fotografia de qualidade. Seu negócio principal (a venda de filmes fotográficos e revelação de fotos) era extremamente lucrativo. A maior parte de sua receita e conhecimento interno vinha desse modelo. De uma perspectiva 80/20, a decisão era óbvia: otimizar ainda mais a fotografia analógica. Era ali que estava o dinheiro, os clientes, a experiência... eles eram os reis do mercado.Ironicamente, a Kodak foi uma das primeiras empresas a desenvolver uma câmera digital... mas o produto não parecia promissor, era um território inexplorado e, claro, menos lucrativo. Então, a Kodak fez exatamente o que a regra 80/20 recomendaria: proteger o negócio que dava certo. Entretanto, o mundo mudou. E muito rápido.
Com o tempo, a fotografia digital tornou-se dominante, os negócios da Kodak entraram em colapso e a antiga líder de mercado acabou declarando falência em 2012.
A Kodak não faliu por ineficiência. Falhou porque foi eficaz demais em jogar o jogo errado.
Dilemas e Dilemas
Eis a boa notícia: com tempo e prática suficientes, o que antes parecia ineficaz pode se tornar altamente eficaz. Você se torna bom naquilo que pratica.Quando Gandhi iniciou sua luta pela resistência não violenta, ela parecia inútil contra o poder imperial. Décadas depois, sua abordagem conquistou a independência da Índia e influenciou movimentos pelos direitos civis em todo o mundo. É improvável que ele tivesse conseguido isso tentando ser um advogado mais eficiente.
Aprender uma nova habilidade, abrir um negócio ou começar uma nova fase da vida quase sempre parece um mau investimento à primeira vista. Temos dificuldade em visualizar o futuro distante; é mais fácil enxergar o curto prazo. É por isso que essas mudanças nunca parecem certas. Comparado com o que você já sabe fazer, o novo caminho parece uma perda de tempo.
A lógica 80/20 nunca funciona tão bem quando chega a hora de mudar de direção. Mas isso não significa que sua nova direção esteja errada. Que decisão você tomaria se parasse de perguntar "o que funciona melhor agora" e começasse a perguntar "quem eu quero me tornar?"