"Aproveite a vida" é um conselho péssimo; a menos que você entenda isto.

"Aproveite a vida" é uma daquelas frases que as pessoas usam como se fosse autoexplicativa. Não é. As pessoas a dizem casualmente, quase que por reflexo, como uma despedida educada ou um slogan motivacional colado no final de uma conversa. Mas quando você para para pensar e analisa a frase com mais atenção, percebe que ela é muito menos óbvia do que parece.

À primeira vista, parece que se resume a: divirta-se, relaxe, viaje, coma bem, ria mais. Essa é a versão do Instagram. Experiências agradáveis. Pouco estresse. Um fluxo constante de dopamina. Uma coletânea de momentos cuidadosamente selecionados. A estética da felicidade em vez de sua essência. É limpo, fotogênico e fácil de vender.

Filosoficamente e psicologicamente, a questão é mais profunda. Muito mais profunda do que o prazer selecionado ou a fuga ocasional.

Aproveitar a vida significa não apenas sobreviver a ela. Significa participar dela. Significa não apenas suportar os dias, contar os dias para o fim de semana, anestesiar as noites ou esperar por algum marco distante que lhe dê permissão para se sentir vivo. Significa estar envolvido. Desperto. Responsivo.

Significa: Você está presente o suficiente para sentir suas próprias experiências. Não está distraído nem distante delas. Você está alinhado o suficiente com seus valores para que seus dias não pareçam uma traição. Há coerência entre o que você diz que importa e como você realmente usa seu tempo. Você está engajado o suficiente para que seu esforço pareça significativo. Mesmo quando é cansativo e imperfeito.

Do ponto de vista psicológico, isso se conecta ao que Mihaly Csikszentmihalyi chamou de "fluxo" "flow"  — o estado em que desafio e habilidade se encontram, e você está totalmente absorto no que está fazendo. Horas passam despercebidas. Sua atenção se concentra. Sua autoconsciência se aquieta. O prazer não é passivo. É uma imersão ativa; criação em vez de consumo, envolvimento em vez de fuga.

Filosoficamente, a ideia se divide em duas direções.

O primeiro é o hedonismo: maximizar o prazer, minimizar a dor. Pense em conforto, estimulação, novidade. Pense em alívio. Pense em excitação. Não há nada inerentemente errado nisso. O prazer faz parte da condição humana. Mas é instável, oscila e depende muito das circunstâncias.

A segunda é a eudaimônica: um termo associado a Aristóteles. Aqui, o prazer não se trata de se sentir bem a cada instante. Trata-se de viver em harmonia com a sua natureza mais elevada. Crescimento, virtude, realização; tornar-se quem você está destinado a ser. Ela levanta questões mais profundas. Não “Isso me faz sentir bem agora?” , mas “Isso me transforma em alguém que eu respeito?”.

Treinar a mente. Construir algo do nada. Dizer não ao que te enfraquece. Dizer sim ao que te desafia. Assumir responsabilidade quando a evitação seria mais fácil. Comprometer-se quando a distração traria uma gratificação imediata.

Nem sempre é uma sensação agradável. Mas dá uma sensação de vida. Há atrito, sim. Há esforço. Mas também há vitalidade. A sensação de que você não está desperdiçando sua própria existência.

Há também uma dura verdade que as pessoas evitam: você não pode desfrutar de uma vida que lhe causa ressentimento. Se sua rotina diária contradiz quem você é, seu trabalho, seus relacionamentos e seus hábitos, então "aproveite a vida" se torna um conselho vazio. Torna-se irritante, até ofensivo. O prazer exige um certo grau de autonomia. Exige a disposição para examinar o que está desalinhado e a coragem para ajustar o que for possível.

Algumas fases da vida são para resistência.
Algumas para construção. Algumas para luto.
Algumas para recuperação.
Algumas exigem mais disciplina do que prazer.
Algumas exigem mais paciência do que entusiasmo.

A alegria nessas fases pode não se manifestar como riso. Pode assumir a forma de uma dignidade silenciosa. Ou pequenos momentos de paz em meio ao caos. Às vezes, é simplesmente estar presente, mesmo assim; escolher a moderação, permanecer fiel a um processo cujo resultado você ainda não consegue prever.

Portanto, quando alguém diz "aproveite a vida", a interpretação madura não é "seja feliz o tempo todo". Não se trata de perfeição emocional ou positividade permanente.

É o seguinte:

Não viva como um sonâmbulo. 
Não se anestesie. 
Não construa uma vida da qual você precise escapar constantemente.

Envolva-se. Escolha conscientemente. Preste atenção. Observe o que te esgota. Observe o que te energiza. Observe onde você se sente mais autêntico.

Quando você imagina "aproveitar a vida", o que realmente vê? Liberdade? Trabalho criativo? Segurança financeira? Romance? Paz? Impacto? Contribuição? Maestria? Simplicidade? De qual definição você está inconscientemente se apropriando?

O prazer não é um acidente. É algo planejado. É construído a partir de escolhas repetidas, pequenos ajustes e compromissos de longo prazo. É moldado pelo que você tolera e pelo que você rejeita.

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